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    Compreender a Exposição ao Frio e a Crioterapia de Corpo Inteiro

    Scientific review of cold exposure: benefits mechanismsAutor do artigo:
    Olli Sovijärvi, MD & autor de não ficção, Diretor Médico, Hololife Center
    27 Feb 2026


    Prefácio

    O objetivo deste artigo é explicar os principais mecanismos de ação da exposição ao frio e avaliar a evidência científica relativa a diferentes métodos. O artigo ajuda o leitor a distinguir entre métodos que parecem semelhantes por fora, mas produzem doses fisiológicas diferentes no corpo. O artigo compara as principais opções práticas: natação de inverno (em buraco no gelo), duches frios, banhos de gelo, imersão em água fria durante o treino, frio extremo (crioterapia de corpo inteiro) e terapia local de frio extremo (por exemplo, X°Cryo). O artigo também analisa alegações e equívocos comuns e clarifica quando um método é uma escolha sensata e quando é uma má escolha para o objetivo pretendido.

    A exposição ao frio está a crescer rapidamente nos contextos do bem-estar e do desporto. Ao mesmo tempo, os conceitos confundem-se. Algumas pessoas falam do “frio” como se fosse uma única intervenção, apesar de a carga fisiológica do frio poder variar amplamente. Os métodos diferem claramente entre si. A diferença resulta da temperatura, da duração da exposição, da taxa de exposição e da área de superfície corporal que arrefece. A água transfere calor de forma mais eficaz do que o ar, pelo que mesmo uma exposição curta à água pode ser mais intensa do que uma exposição mais longa ao ar frio. A implementação prática também altera a dose.


    Resumo do artigo: principais conclusões e recomendações práticas

    A exposição ao frio é um fator de stress fisiológico que afeta o sistema nervoso, a circulação, o metabolismo e a sinalização da dor. A investigação mostra que diferentes métodos de exposição ao frio desencadeiam respostas biológicas distintas. O efeito depende da temperatura, da duração da exposição, da taxa de arrefecimento e da área de superfície corporal exposta.

    A evidência científica mais robusta apoia as seguintes áreas de utilização:

    • A imersão em água fria reduz a dor muscular de início tardio (DOMS) e pode melhorar a perceção de recuperação.
    • A terapia local com frio reduz a dor ao abrandar a velocidade de condução nervosa.
    • A exposição breve ao frio aumenta o estado de alerta ao ativar o sistema nervoso simpático.
    • A exposição repetida ao frio pode alterar a regulação autonómica e a tolerância ao frio.

    A evidência é limitada ou variável para as seguintes alegações:

    • Aumento a longo prazo do metabolismo ou da queima de gordura
    • Fortalecimento significativo das defesas imunitárias
    • Benefícios sistémicos amplos para todos os utilizadores

    Principais princípios práticos:

    • A dose é decisiva: mais ou mais frio não significa automaticamente melhor.
    • Selecione o método com base no objetivo (dor, recuperação, estado de alerta, tratamento local).
    • A exposição súbita à água fria pode causar choque ao frio, pelo que o utilizador deve iniciar a exposição gradualmente.
    • A imersão regular em água fria imediatamente após o treino de força pode enfraquecer a adaptação relacionada com o crescimento muscular.

    Conclusão geral:
    A exposição ao frio é uma ferramenta útil em certas situações, especialmente para o alívio da dor e o apoio à recuperação. Não é um “tratamento de saúde” geral para todos os fins. O benefício depende do método correto, da dose e do caso de utilização.


    Introdução

    A exposição ao frio significa expor o corpo a água fria, ar frio ou arrefecimento local, de modo que a pele e os tecidos subjacentes diminuam de temperatura de forma mensurável. Isto não é apenas uma sensação ou desconforto. É um estímulo fisiológico que desencadeia um conjunto de respostas regulatórias previsíveis. O frio ativa recetores de frio no sistema nervoso periférico, altera o equilíbrio do sistema nervoso autónomo e afeta a regulação da circulação, as respostas hormonais e o metabolismo celular. Através destas respostas, a exposição ao frio pode afetar, entre outros aspetos, o estado de alerta, a sinalização da dor, a resposta inflamatória e o uso de energia.(1,2)

    Os efeitos biológicos da exposição ao frio são determinados, sobretudo, pela alteração da temperatura nos tecidos e pela rapidez e extensão com que essa alteração ocorre. Quando a pele arrefece, os vasos sanguíneos contraem-se, o sistema nervoso simpático é ativado e o organismo tenta proteger o centro do corpo da perda de calor. Ao mesmo tempo, iniciam-se respostas do sistema nervoso central e do sistema endócrino. Estas respostas podem manifestar-se, por exemplo, por um aumento da norepinefrina, alterações na sensibilidade à dor e um ajuste fino da regulação metabólica. Devido a estes mecanismos, a exposição ao frio atua como um estímulo regulador biológico, em vez de um tratamento mecânico ou químico.(3,4)

    É essencial compreender que a exposição ao frio não é uma modalidade terapêutica uniforme. O termo abrange vários métodos que diferem significativamente entre si e produzem estímulos de diferentes magnitudes e naturezas no organismo. Duches frios, banhos de gelo, imersão em água fria, natação de inverno (natação em água gelada através de um buraco no gelo), crioterapia de corpo inteiro e terapêutica local de frio extremo diferem entre si tanto a nível físico como biológico. A diferença não está apenas na perceção de frio. A diferença está na eficiência com que o corpo perde calor e no tipo de resposta do sistema nervoso e da circulação que se segue.(5,6)

    Uma diferença física fundamental relaciona-se com o facto de o corpo estar exposto a água fria ou a ar frio. A água conduz o calor várias vezes (cerca de 25x) mais eficazmente do que o ar. Por isso, mesmo uma curta exposição à água fria pode desencadear uma resposta fisiológica mais intensa do que uma exposição mais longa a ar muito frio. Um banho de gelo e a imersão em água fria arrefecem os tecidos de forma rápida e generalizada, enquanto na crioterapia de corpo inteiro a baixa temperatura do ar se combina com um tempo de exposição muito curto, o que limita o arrefecimento dos tecidos profundos. Na terapêutica local de frio extremo, o arrefecimento dirige-se a uma área limitada, pelo que a carga sistémica se mantém mais baixa, mas o efeito local pode ser evidente.(7-10)

    A duração da exposição e a velocidade da exposição também são decisivas. A exposição súbita à água fria pode desencadear um forte choque térmico. O choque térmico envolve respiração mais rápida, aumento da pressão arterial e maior carga de trabalho cardíaca. Uma exposição gradual produz frequentemente uma resposta mais controlada e um risco menor. Da mesma forma, a área da superfície corporal exposta ao frio afeta a intensidade da resposta. Arrefecer apenas os membros não é comparável à imersão de corpo inteiro, mesmo que a temperatura seja a mesma.(11,12)

    Devido a estas diferenças, não é possível avaliar os efeitos da exposição ao frio a um nível geral sem uma definição precisa do método. O mesmo termo pode referir-se quer a um estímulo muito ligeiro, quer a uma carga fisiológica muito intensa. Isto aplica-se tanto aos benefícios como aos riscos. Com uma dosagem correta, a exposição ao frio pode apoiar a recuperação, reduzir a dor ou modificar o estado de alerta. Com uma dosagem incorreta, pode aumentar o risco de lesão, reduzir a resposta ao treino, agravar sintomas ou causar danos agudos. Por esta razão, a exposição ao frio deve ser encarada como uma intervenção baseada na dose, e não como uma prática uniforme ou automaticamente benéfica.(13,14)


    Definição e limites da exposição ao frio

    Neste artigo, "exposição ao frio" significa exposição que cumpra as seguintes condições. O objetivo destas condições é distinguir uma dose de frio biologicamente relevante de um simples desconforto e distinguir os métodos entre si, para que possam ser avaliados de forma razoável.

    1) A exposição reduz a temperatura da pele

    A pele arrefece rapidamente. Isto altera a regulação do sistema nervoso periférico e dos vasos sanguíneos.(15,16) Neste limite, o fator essencial é uma alteração mensurável, e não apenas a sensação de “ter frio”. O arrefecimento da pele ativa sensores de frio e desencadeia reflexos que protegem o corpo da perda de calor:

    • os vasos sanguíneos contraem-se na pele e nos membros
    • o fluxo sanguíneo cutâneo diminui
    • a transferência de calor para o centro do corpo abranda
    • a carga sobre o sistema nervoso altera-se (estado de alerta, respiração, tensão muscular)

    Na prática, a água costuma provocar um arrefecimento cutâneo mais rápido do que o ar (exceto em frio extremo), pelo que a mesma “sensação” pode corresponder a uma dose diferente em ambientes diferentes.

    2) A exposição produz uma resposta fisiológica, e não apenas uma sensação subjetiva

    A sensação não indica a dose. A temperatura, o tempo, a área de superfície e a velocidade de arrefecimento definem a dose. Este é um problema prático importante: a pessoa avalia o frio sobretudo pela sensação, mas o corpo responde à dinâmica da temperatura. Duas exposições podem parecer iguais, mas podem produzir respostas diferentes se qualquer um dos seguintes elementos mudar:(16,17)

    • Temperatura: 15 °C, 5 °C ou 0 °C não são o mesmo estímulo, mesmo que o “frio” pareça semelhante
    • Tempo: 30 segundos e 8 minutos produzem uma dose total diferente
    • Área de superfície: pernas na água ≠ corpo inteiro na água
    • Velocidade: entrada gradual ≠ “mergulho” súbito
    • Água vs ar: a água conduz o calor cerca de 25 vezes mais eficazmente do que o ar (condutividade térmica), pelo que a mesma “sensação” pode significar um arrefecimento dos tecidos diferente em ambientes diferentes.(10)

    3) A exposição segue a lógica dose–resposta

    Uma dose curta e controlada pode apoiar respostas desejadas. Uma dose demasiado elevada pode aumentar o dano. Isto aplica-se especialmente à água fria, onde o choque pelo frio e o risco de arritmia podem aumentar com uma exposição súbita.(12,17)

    Na prática, a exposição ao frio funciona como outros estímulos fisiológicos: a dose determina a qualidade da resposta. O mesmo método pode ser útil ou prejudicial consoante a dose e o momento:

    • Uma dose pequena pode aumentar a vigilância e melhorar a sensação de controlo
    • Uma dose média pode apoiar a redução da dor e a perceção de recuperação
    • Uma dose demasiado elevada pode aumentar a carga, reduzir o desempenho e aumentar os riscos

    Na água fria, os riscos aumentam porque a exposição súbita pode desencadear simultaneamente uma forte resposta respiratória e stress cardíaco e circulatório. Por isso, “mais e mais frio” não é um princípio seguro. Um princípio seguro é uma dose previsível e um aumento gradual.

    Um limite prático que ajuda o leitor

    A exposição ao frio é, neste artigo, uma “intervenção real” quando o utilizador consegue descrever pelo menos estas quatro coisas:

    • Uma estimativa de temperatura (ou condição, como buraco no gelo / banho de gelo / duche fresco)
    • Tempo de exposição ou duração
    • Área de superfície exposta (local/parcial / corpo inteiro)
    • Método de implementação (gradual vs súbito)

    Isto permite avaliar a exposição ao frio com a mesma lógica de outras intervenções: o que foi feito, que dose ocorreu e que resposta é realista.


    Principais mecanismos fisiológicos da exposição ao frio

    1) Resposta aguda do sistema nervoso autónomo

    O frio ativa o sistema nervoso simpático, o que aumenta a vigilância. Ao mesmo tempo, o corpo intensifica a resposta hormonal ao stress e a resposta às catecolaminas, especialmente a secreção de norepinefrina. Esta resposta começa muitas vezes em segundos e pode manifestar-se como energia e uma sensação de “acordar”. Dados humanos clássicos mostram que a exposição a água fria aumenta de forma rápida e substancial a norepinefrina plasmática. Isto apoia um modelo em que o frio atua como um stressor agudamente ativador.(18)

    O contacto súbito com água fria também pode desencadear choque pelo frio. No choque pelo frio, a respiração acelera e pode ocorrer um reflexo de “gasp” (necessidade de inspirar de forma brusca). A respiração passa para hiperventilação descontrolada. A frequência cardíaca e a pressão arterial sobem rapidamente. Esta resposta aumenta o risco se a pessoa inspirar sob água ou se a carga cardíaca se tornar demasiado elevada. O mecanismo de choque pelo frio descrito por Tipton inclui este componente respiratório e as suas consequências, como a redução da capacidade de apneia.(17)

    O choque pelo frio não é apenas uma “sensação má”. É uma reação fisiológica aguda que pode aumentar o risco de uma situação perigosa, especialmente quando a respiração se torna descontrolada ou quando o pânico e a submersão involuntária se combinam. Por este motivo, a entrada gradual e a respiração calma são o núcleo da segurança, mesmo em pessoas em boa forma física.(1)

    2) Resposta vascular e termorregulação

    O frio contrai os vasos sanguíneos periféricos e reduz o fluxo sanguíneo cutâneo. Isto reduz a perda de calor e direciona relativamente mais a circulação para o centro do corpo. Ao mesmo tempo, a resistência periférica aumenta, elevando temporariamente a pressão arterial. Isto faz parte da fisiologia normal do frio.(3)

    Na água fria, o arrefecimento dos tecidos acontece rapidamente porque a água conduz o calor cerca de 25 vezes mais eficazmente do que o ar (condutividade térmica). Isto explica porque a exposição à água fria produz uma resposta vascular mais forte e mais rápida do que o ar frio com uma sensação de “frio” semelhante.(10)

    Após a exposição, pode ocorrer afterdrop. No afterdrop, a temperatura central pode continuar a diminuir após a saída, porque os tecidos periféricos frios continuam a transferir calor para o centro, e a circulação redistribui-se novamente durante o reaquecimento. Modelos experimentais apoiam um papel tanto da carga térmica dos tecidos como da transferência convectiva de calor através da circulação neste fenómeno.(19)

    3) Alteração nas vias da inflamação e da dor

    O frio pode atenuar a sinalização da dor porque reduz localmente a velocidade de condução nervosa e diminui a entrada nociceptiva proveniente dos tecidos. Como resultado, a experiência de dor pode diminuir e surge um efeito agudo típico de “adormecimento”. O mesmo princípio fisiológico também explica porque a terapia local com frio tradicional pode aliviar a dor e a irritação em determinadas situações.(16)

    O frio também pode alterar marcadores inflamatórios e a resposta das citocinas, mas a evidência varia consoante o método e o alvo. Para a crioterapia de corpo inteiro (frio extremo), uma meta-análise de estudos aleatorizados descreve alterações em algumas citocinas (por exemplo, um aumento de IL-10 e uma diminuição de IL-1β em certas análises). Os resultados não são consistentes em todos os marcadores nem em todos os desenhos de estudo. Isto sugere que a resposta depende da dose, da população estudada e do protocolo.(20)

    Na prática, isto significa o seguinte: o frio pode alterar a biologia inflamatória, mas o efeito não é automático nem igual em todas as pessoas. Por este motivo, é sempre necessário relacionar a evidência científica com o método utilizado (imersão em água fria vs crioterapia de corpo inteiro vs crioterapia local) e com o objetivo (dor, recuperação, grupo de doença).

    4) Tecido adiposo castanho e metabolismo

    A exposição repetida ao frio pode ativar o tecido adiposo castanho (BAT), que produz calor através da termogénese sem tremor. A ativação do BAT pode aumentar o gasto energético e alterar a utilização enzimática dos substratos, ou seja, de moléculas metabólicas. Nos seres humanos, o BAT é ativado de forma mais clara em condições de frio.(21)

    A ativação do BAT pode estar associada a alterações no metabolismo da glucose e da gordura. A aclimatação ao frio pode melhorar a sensibilidade à insulina em pessoas com diabetes tipo 2, mesmo que a captação de glucose pelo BAT nem sempre explique toda a alteração. Esta observação apoia um modelo em que o frio afeta o metabolismo noutros tecidos, como o músculo.(22)

    A evidência em humanos é promissora, mas a resposta varia entre indivíduos e protocolos de exposição. Alguns estudos mostram que a aclimatação ao frio aumenta a atividade do BAT e eleva a termogénese sem tremor. A magnitude da resposta depende da duração da exposição, da temperatura e da capacidade do organismo para produzir calor através do tremor muscular. Se ocorrer tremor, parte da produção de calor transfere-se para os músculos, reduzindo assim o papel relativo do BAT.(23)


    Benefícios para a saúde de diferentes métodos de exposição ao frio

    A exposição ao frio está associada a uma vasta gama de benefícios para a saúde, mas a evidência científica não é igualmente forte para todos os métodos nem para todos os efeitos alegados. A literatura científica apoia sobretudo três áreas de efeito:

    • Dor e recuperação – especialmente na imersão em água fria e no arrefecimento local.
    • Regulação da inflamação e da resposta ao stress – especialmente na crioterapia de corpo inteiro e na exposição repetida ao frio.
    • Ativação do sistema nervoso e estado de alerta – especialmente na exposição breve ao frio.

    Em contraste, afirmações como perda de gordura significativa, alterações metabólicas a longo prazo ou prevenção geral de doenças permanecem incertas ou contraditórias na evidência científica.

    Um achado importante da investigação é que métodos diferentes produzem respostas diferentes. A imersão em água fria, o ar frio e o arrefecimento local afetam a termorregulação, o sistema nervoso e a circulação de formas distintas. Por isso, os benefícios e os riscos para a saúde também diferem.

    Segue-se uma revisão dos principais métodos com base na evidência científica.


    Crioterapia de corpo inteiro (WBC): benefícios para a saúde estudados

    1) Resposta inflamatória e de citocinas

    A WBC pode afetar a resposta inflamatória e a sinalização do sistema imunitário. Os estudos relatam alterações nos níveis de citocinas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias após uma série de tratamentos. Tipicamente, os estudos relatam aumentos das citocinas anti-inflamatórias (por exemplo, IL-10) e diminuições de alguns marcadores pró-inflamatórios (por exemplo, IL-1β, TNF-α) em certos desenhos de estudo. Uma revisão sistemática e meta-análise (Scientific Reports, 2025) relatou que a crioterapia de corpo inteiro pode alterar os perfis de citocinas tanto em populações saudáveis como clínicas. No entanto, os efeitos não foram consistentes em todos os estudos e a heterogeneidade foi elevada. Isto sugere dependência da dose, da população e do protocolo.(20)

    Estudos controlados mais antigos relatam alterações semelhantes em marcadores de inflamação e de stress oxidativo em atletas após uma série de WBC. Stanek et al. relataram alterações em biomarcadores de stress oxidativo e do sistema antioxidante após exposições múltiplas, apoiando um modelo em que a WBC atua como um fator de stress hormético.(31) A crioterapia de corpo inteiro também pode afetar a inflamação e os marcadores de lesão muscular em associação com o treino, mas a interpretação é limitada por diferenças metodológicas entre estudos.(36)

    2) Dor e capacidade funcional

    Na prática, a WBC é mais frequentemente utilizada para o controlo da dor e de sintomas relacionados com a carga. Um modelo clinicamente plausível combina arrefecimento rápido da pele, alterações na circulação periférica, alterações na regulação autonómica e alterações relacionadas com a sinalização da dor. Através destes mecanismos, o utilizador pode sentir redução da dor e recuperação mais fácil, especialmente com tratamentos em série. No desporto, revisões sistemáticas indicam que a WBC pode reduzir a dor muscular percecionada e a sensibilidade em alguns contextos, mas o efeito no desempenho medido é inconsistente. Isto apoia uma interpretação prática: os benefícios manifestam-se mais frequentemente na experiência dos sintomas do que numa melhoria clara do desempenho.(6)

    Uma revisão mais abrangente da literatura de medicina desportiva (Lombardi et al., 2017) compila achados mecanísticos e clínicos e apoia um modelo em que a WBC pode ter efeitos anti-analgésicos e anti-inflamatórios em alguns contextos, mas também destaca a variação na qualidade dos estudos e nos protocolos.(36)

    Em síndromes de dor crónica e de sintomas, também existem evidências, mas estas recorrem frequentemente a amostras pequenas. Por exemplo, na fibromialgia, estudos controlados referem que uma série de WBC está associada a melhorias na dor e na qualidade de vida em comparação com condições de controlo. Isto apoia a possibilidade de que alguns benefícios estejam relacionados com alterações na regulação autonómica e na regulação da dor, e não apenas com “sentir frio”.(37)

    3) Sistema nervoso autonómico

    A WBC pode alterar a regulação autonómica, de modo que a atividade parassimpática aumenta brevemente após a exposição, o que se reflete tipicamente em métricas de HRV (por exemplo, RMSSD e potência HF). Os estudos relatam isto após uma única exposição e após protocolos de séries curtas. Por exemplo, Louis et al. estudaram a resposta à dose e ao tempo (várias temperaturas e 5 exposições) e utilizaram a HRV para medir alterações em índices que refletem a atividade parassimpática.(32)

    Alguns estudos experimentais mostram resultados semelhantes. Zalewski et al. relataram que uma breve exposição a ar muito frio altera o equilíbrio autonómico e sugere um efeito mais forte do nervo vago (regulação parassimpática) após a exposição.(33) Além disso, Douzi et al. mediram a HRV noturna em associação com a WBC após o treino e relataram alterações compatíveis com um reforço da atividade parassimpática (como parte da fisiologia da recuperação).(34)

    Em geral, as evidências sugerem que a WBC pode acelerar a recuperação parassimpática ou aumentar a regulação vagal a curto prazo. Uma meta-análise recente também apoia isto. Nessa análise, a exposição ao frio (incluindo criostimulação/exposições do tipo WBC) aumentou os índices de HRV (incluindo RMSSD e HF) e diminuiu a razão LF/HF num seguimento curto.(35)

    As evidências são, em parte, heterogéneas. Os estudos diferem na temperatura, no tempo de exposição, no número de exposições, na postura durante a medição e no momento da medição. Os tamanhos das amostras são muitas vezes pequenos. Por este motivo, deve interpretar as alterações na HRV principalmente como alterações agudas da regulação autonómica, e não como prova direta de “reparação do sistema nervoso autonómico” a longo prazo em todos os utilizadores.


    Imersão em água fria (CWI): benefícios de saúde estudados

    A imersão em água fria (CWI) é a imersão do corpo em água fria, normalmente a 5–15 °C, durante vários minutos. O método arrefece rapidamente a pele e os tecidos superficiais, alterando assim a circulação periférica, a resposta do sistema nervoso à carga e a experiência sintomática após a carga. A CWI foi mais estudada no contexto da recuperação desportiva.(24)

    1) Dor de DOMS

    A evidência de investigação mais forte para a CWI relaciona-se com o alívio da dor muscular de início tardio (DOMS). Uma meta-análise em rede recente comparou diferentes doses de temperatura e duração e mostrou que uma exposição de 10–15 minutos em água a 11–15 °C produziu a maior probabilidade de reduzir a dor de DOMS em comparação com outras categorias de dose. A mesma análise relatou que certas doses podem ser melhores para alguns marcadores objetivos de recuperação (por exemplo, CK ou salto), mas, para a dor de DOMS, a melhor foi especificamente duração média + temperatura moderada (11–15 °C).(24)

    Uma meta-análise de 2012 (Leeder et al.) relatou que, em média, a CWI é eficaz na redução da dor muscular e no apoio à recuperação após exercício intenso, embora a variação entre desenhos de estudo seja grande.(39)

    A resposta à DOMS depende do tipo de exercício (especialmente da carga excêntrica), do momento da exposição e da dose. Nem todos os estudos mostram benefício, mas a evidência global para o alívio da dor de DOMS é a mais forte, especificamente para a CWI.

    2) Recuperação percebida

    A imersão em água fria pode melhorar a recuperação percebida e reduzir a perceção de esforço em certas situações, especialmente quando a exposição ocorre imediatamente após a carga. Isto manifesta-se tipicamente na dor muscular, na qualidade percebida da recuperação e na fadiga percebida.

    Uma revisão sistemática e meta-análise de tratamentos de arrefecimento (incluindo CWI) (Hohenauer et al.) relatou que o arrefecimento pode beneficiar algumas medidas subjetivas de recuperação, mesmo quando as medidas objetivas (por exemplo, medidas de desempenho) não mudam de forma consistente. Isto apoia uma interpretação prática: a CWI afeta frequentemente a experiência sintomática de forma mais sensível do que todos os indicadores de desempenho.(26)

    Além disso, uma revisão sistemática e meta-análise de nível elevado (Moore et al.) relatou que a CWI pode ser moderadamente benéfica para várias variáveis de recuperação (incluindo dor muscular e recuperação percebida) em determinados momentos após a carga, mas o efeito depende da carga e do método de comparação.(40)

    3) Efeito na adaptação

    A CWI pode enfraquecer a adaptação ao treino se for usada rotineiramente imediatamente após treino de força. O principal achado é que a CWI pode atenuar vias de sinalização e respostas celulares associadas à adaptação anabólica.

    Roberts et al. (2015) mostraram que a CWI imediatamente após treino de força atenuou alterações agudas na resposta das células satélite e na atividade de cinases relacionadas com a hipertrofia. Isto dá uma base biológica para explicar por que razão o crescimento muscular a longo prazo pode ser menor se a CWI fizer parte contínua da rotina de recuperação.(28)

    Investigação posterior também relatou que a imersão em água fria pode atenuar a sinalização anabólica e a hipertrofia das fibras musculares no treino de força de corpo inteiro, embora os níveis de força ainda possam melhorar. Isto apoia uma distinção prática: a imersão em água fria pode enquadrar-se num objetivo agudo de “melhor desempenho hoje”, mas pode ser uma má escolha se o objetivo principal for o máximo crescimento muscular, isto é, a hipertrofia.(41)

    Este efeito prejudicial é especialmente prevalente quando a imersão em água fria ocorre imediatamente após o treino, durante períodos prolongados e com frequência. O uso ocasional ou o uso separado do treino de hipertrofia pode ser diferente, mas a investigação alerta especificamente para o uso regular logo após o treino de resistência quando o objetivo é a hipertrofia.


    Natação de inverno e exposição repetida à água fria

    A natação de inverno combina dois fatores numa única intervenção: imersão em água fria e exposição repetida. A repetição altera a natureza da resposta. O frio agudo aumenta rapidamente a ativação simpática e a resposta hormonal ao stress, mas a exposição regular pode atenuar parte desta reação e deslocar a ênfase para a adaptação.(42)

    1) Stress e resposta hormonal

    A exposição repetida à água fria pode alterar a resposta das catecolaminas (norepinefrina e epinefrina) e, em parte, a resposta ao cortisol. Num estudo prospetivo com praticantes de natação de inverno (Huttunen et al.), os investigadores mediram as respostas numa imersão de teste no outono e novamente após 1 e 3 meses de natação de inverno regular. Os resultados sugerem que a natação de inverno regular está associada a uma reatividade simpatoadrenal reduzida na exposição aguda (a resposta das catecolaminas atenua-se), o que corresponde a um modelo de adaptação.(42)

    Num estudo mais abrangente sobre “exposição prolongada de corpo inteiro ao frio” (Leppäluoto et al.), os investigadores relataram alterações em várias variáveis endócrinas (incluindo ACTH, β-endorfina, cortisol e catecolaminas) durante exposições repetidas ao frio. Isto apoia o princípio básico de que a exposição repetida ao frio pode alterar tanto a resposta do eixo HPA como o perfil de resposta do sistema simpático, mesmo que o modelo de exposição não seja exatamente o mesmo que um buraco no gelo.(43)

    2) Tecido adiposo castanho e termogénese sem tremores

    A exposição repetida ao frio pode aumentar a atividade do tecido adiposo castanho e apoiar a termogénese sem tremores nos seres humanos. Um estudo humano fundamental é o de Yoneshiro et al. (2013), no qual a aclimatação ao frio foi associada ao recrutamento de tecido adiposo castanho e a alterações metabólicas. Isto fornece uma base biológica para explicar por que algumas pessoas referem melhor tolerância ao frio ao longo do tempo e por que a resposta pode também manifestar-se no gasto energético e na utilização de substratos.(44)

    Como pano de fundo, considere-se a literatura de revisão, que compila resultados de estudos em humanos sobre a ativação do tecido adiposo castanho e a adaptação ao frio (revisões na linha de Saito & Yoneshiro). Isto ajuda a definir expectativas: a resposta do tecido adiposo castanho varia claramente entre indivíduos e protocolos de exposição.(45)

    3) Humor

    A natação em água fria (ou natação de inverno) também foi testada em contextos clínicos relacionados com o humor (por exemplo, como tratamento adjuvante da depressão). Nestes estudos, as amostras são muitas vezes pequenas e os desenhos são heterogéneos. A evidência apoia a possibilidade de que parte do efeito se relacione com alterações na regulação autonómica e do stress, bem como com uma resposta experiencial, mas conclusões sólidas exigem estudos aleatorizados de maior dimensão.(46)

    Em resumo, a natação de inverno parece promissora com base na evidência científica relativa à adaptação das respostas autonómica e hormonal e à adaptação metabólica ao frio (tecido adiposo castanho e termogénese sem tremores). A evidência sobre efeitos no humor é interessante, mas muitas vezes assenta em amostras pequenas e desenhos variáveis.


    Chuveiros frios

    Um chuveiro frio é uma exposição breve e ligeira ao frio, na qual o corpo é exposto a água fresca ou fria durante algumas dezenas de segundos ou um par de minutos. Do ponto de vista fisiológico, a exposição é claramente mais ligeira do que a imersão em água fria ou um buraco no gelo, porque o tempo de exposição é normalmente curto, não imersivo (sem imersão) e a temperatura corporal central costuma alterar-se apenas ligeiramente. Os efeitos envolvem sobretudo a ativação do sistema nervoso autónomo, a resposta aguda ao stress e a perceção de alerta.

    1) Baixa médica

    Num estudo importante, mais de 3000 participantes tomaram diariamente um chuveiro frio durante 30, 60 ou 90 segundos, ao longo de 30 dias, no final de um duche normal. O estudo relatou cerca de 29% menos dias de baixa médica autorrelatada do que no grupo controlo.(27)

    No entanto, a principal conclusão foi que o número de episódios reais de doença não diminuiu. Os participantes sentiram-se mais funcionais apesar da doença. Isto sugere um possível efeito na perceção de alerta, na tolerância à carga ou na capacidade funcional, e não uma redução direta do risco de infeção.

    Os investigadores sugeriram a ativação do sistema nervoso autónomo e da resposta hormonal ao stress como possíveis mecanismos, mas o estudo não demonstra um mecanismo imunológico direto nem um efeito causal no adoecer.

    2) Alerta e ativação autonómica

    A exposição curta ao frio ativa o sistema nervoso simpático e aumenta a secreção de catecolaminas, especialmente a norepinefrina. Isto pode aumentar o estado de alerta, a frequência respiratória e a energia percebida imediatamente após a exposição.

    Estudos sobre os efeitos endócrinos da exposição ao frio mostram que um estímulo agudo de frio em todo o corpo aumenta a norepinefrina e ativa vias hormonais associadas à resposta ao stress. Isto fornece uma explicação biológica para o efeito percebido de “revigoramento” de um duche frio.(47)

    Além disso, os investigadores demonstraram que a resposta autonómica inclui um reflexo respiratório rápido e ativação simpática, que fazem parte dos efeitos fisiológicos agudos da exposição ao frio. Esta resposta surge rapidamente e não requer exposição prolongada.(48)


    Terapia local de frio: saco de gelo vs frio extremo local (CO₂/ar frio, por exemplo, tipo X°Cryo)

    A terapia local de frio significa arrefecer uma área limitada de modo a que a temperatura da pele diminua e a sinalização da dor e a resposta dos tecidos se alterem. Na prática, o frio local divide-se em duas “classes” diferentes que se comportam de forma distinta em termos de dose e arrefecimento dos tecidos:

    1. Frio local básico: saco de gelo, gel frio, envoltório de gelo, compressa fria
    2. Frio extremo local: jato de CO₂ frio / jato de ar frio / “crioterapia localizada” (que inclui dispositivos do tipo X°Cryo)

    A) Frio local básico (saco de gelo / compressa fria)

    1) Velocidade de condução nervosa e sinalização da dor

    O frio abranda a velocidade de condução nervosa e aumenta o limiar da dor. Este é um dos efeitos fisiológicos mais bem documentados do frio local. Algafly & George (2007) mostraram que, quando a temperatura da pele do tornozelo desceu para cerca de 10 °C (com gelo triturado), a velocidade de condução nervosa (NCV) diminuiu progressivamente (cerca de um terço), e o limiar e a tolerância à dor aumentaram. Isto apoia um mecanismo direto: arrefecimento → diminui a NCV → diminui a entrada nociceptiva → diminui a perceção da dor.(49)

    2) Arrefecimento dos tecidos e variação da dose

    O efeito da compressa de gelo depende claramente do contacto, do tempo, da compressão e da espessura da gordura subcutânea. Chesterton et al. (2002) compararam métodos de frio local e mostraram que a temperatura da pele diminui rapidamente, mas a profundidade e a duração do arrefecimento variam consoante o método. Isto é importante na prática: os mesmos “15 min de gelo” não constituem a mesma dose para toda a gente.(50) Bleakley (2010) resume a mesma questão na lógica de tratamento: o “arrefecimento ideal dos tecidos” não resulta de uma instrução geral única. É necessário relacionar a dose com o tecido e com o objetivo.(51)

    3) Analgesia e lesões agudas dos tecidos moles

    Em lesões agudas e irritação dos tecidos, as pessoas usam frequentemente a terapia com frio para controlo da dor (analgesia) e para limitar o inchaço. Uma revisão sistemática publicada em 2004 resumiu a evidência da terapia com gelo na lesão aguda dos tecidos moles como variável e os protocolos como muito diversos, mas o benefício aparece mais frequentemente nos sintomas (dor/capacidade funcional) do que numa cicatrização mais rápida dos tecidos.(52)

    Num estudo sobre entorse do tornozelo, Bleakley et al. (2006) compararam dois protocolos de gelo num desenho randomizado. Isto apoia uma conclusão prática: o protocolo importa, e a ideia de que “gelo é gelo” não é suficiente.(53)

    Interpretação prática (frio local básico):
    O benefício mais forte e mais fiável é um efeito temporário de alívio da dor, mediado pela neurofisiologia. Os benefícios clínicos dependem da situação e da dose.

    B) Frio extremo local (CO₂ frio / ar frio, “crioterapia localizada”, por exemplo, tipo X°Cryo)

    O frio extremo local visa diminuir rapidamente a temperatura da pele através de um fluxo intenso de frio (CO₂ ou ar frio) sem contacto direto com gelo. Um objetivo prático é muitas vezes uma queda rápida e acentuada da temperatura da pele numa área limitada, por vezes até níveis muito baixos (dependente do dispositivo e do protocolo).

    1) Efeito na temperatura da pele e na velocidade de condução nervosa

    Os investigadores publicaram estudos sobre métodos de ar frio/fluxo frio em que medem simultaneamente a temperatura da pele e a neurofisiologia. Por exemplo, com um método local de ar frio do tipo Cryoflow, os estudos relatam tanto a diminuição da temperatura da pele como alterações na velocidade de condução nervosa em indivíduos saudáveis (configuração da NCV no antebraço).(54)

    Isto apoia o princípio básico: o “frio extremo” também atua em grande parte através da mesma neurofisiologia que o gelo, mas a dose pode aumentar mais depressa e a aplicação direcionada pode ser diferente.

    2) Dor e inflamação: comparação entre gelo e CO₂ frio numa articulação

    Uma das melhores comparações clínicas diretas para frio extremo local é Guillot et al. (2017), um ensaio controlado aleatorizado em artrite do joelho. O estudo comparou duas intervenções locais de frio: gelo local e CO₂ frio. No estudo, ambas reduziram a atividade de Power Doppler sinovial e a dor a curto prazo. O efeito ainda se mantinha no dia seguinte. O CO₂ frio local pode, portanto, ser pelo menos tão eficaz como a terapia com gelo em certas condições articulares inflamatórias.(55)

    Interpretação prática (frio extremo local):
    A evidência apoia que o CO₂ frio/ar frio local pode produzir alívio rápido da dor e também pode afetar sintomas articulares inflamatórios em determinados contextos. Ao mesmo tempo, a otimização da “melhor resposta” específica do dispositivo, por exemplo, visando uma temperatura da pele de 0–1 °C, ainda não está suportada por evidência científica. Na maioria das vezes, isto é específico do protocolo e do fabricante.


    Mitos relacionados com a exposição ao frio

    1) Mito: “A exposição ao frio é sempre segura se eu for saudável.”

    Refutação:
    A água fria pode desencadear choque térmico pelo frio, em que a respiração acelera e pode ocorrer um reflexo de gaspejo em segundos. Isto pode aumentar o risco de afogamento se a respiração não for controlada. A exposição à água fria também pode aumentar as arritmias em pessoas saudáveis porque o choque térmico e o reflexo de mergulho podem ser ativados ao mesmo tempo (“conflito autonómico”).(12,48)

    2) Mito: “Quanto mais frio, melhor.”

    Refutação:
    A dose decide. Na dor de DOMS, uma meta-análise em rede mostrou que a resposta mais provável foi obtida com uma duração de 10–15 min e uma temperatura de 11–15 °C, não necessariamente com a água mais fria possível. Isto apoia a ideia de uma janela de dose.(24)

    3) Mito: “O frio melhora sempre e em tudo a recuperação.”

    Refutação:
    A CWI frequentemente reduz a dor muscular e pode melhorar a recuperação percebida, mas os resultados variam consoante a medida e o desporto. Além disso, alguns benefícios surgem de forma mais clara nos sintomas subjetivos do que no desempenho.(56)

    4) Mito: “A crioterapia é a mesma coisa que um banho de gelo.”

    Refutação:
    O ar e a água transferem calor de forma diferente. A condutividade térmica é cerca de 0.6 W/(m·K) para a água e cerca de 0.025 W/(m·K) para o ar. Assim, a água conduz o calor cerca de 25 vezes mais do que o ar, quando se compara apenas a condução. Isto altera a dose, o arrefecimento cutâneo e o perfil de risco.(7-10)

    5) Mito: “A exposição ao frio funciona como a melhor forma de queimar gordura.”

    Refutação:
    O frio pode ativar a BAT e aumentar a termogénese sem tremor, mas a resposta varia claramente entre indivíduos e protocolos. A investigação apoia o recrutamento de BAT na aclimatação ao frio, mas não apoia uma afirmação simples de que “o frio faz toda a gente perder peso”.(44-45)


    Protocolos práticos e princípios básicos da dose

    As quatro principais variáveis da dose

    1) Temperatura (°C)

    A temperatura define a intensidade do estímulo de arrefecimento. A água geralmente produz uma dose de arrefecimento maior do que o ar com a mesma “sensação de frio”, porque o tecido arrefece mais depressa.(24)

    2) Duração (segundos–minutos)

    A duração define a dose total. Uma exposição curta pode ativar o sistema nervoso sem arrefecimento profundo. Uma exposição mais longa aumenta a probabilidade de benefícios e de danos, e também aumenta o risco de afterdrop.(25)

    3) Área de superfície (local vs corpo inteiro)

    A imersão de corpo inteiro é uma intervenção diferente do arrefecimento local. Uma grande área de superfície altera a distribuição da circulação e a carga térmica. Isto altera a qualidade da resposta e os riscos.(26)

    4) Taxa de arrefecimento (choque súbito vs gradual)

    A exposição súbita à água fria pode desencadear choque térmico pelo frio (a respiração acelera, a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam). A entrada gradual reduz a proporção de choque agudo.(12)


    Exemplos práticos de diferentes protocolos

    Caso / perfil Situação Método Protocolo (exemplo) Porquê esta escolha Nota
    Praticante de treino de força (hipertrofia) Crescimento da massa muscular como objetivo principal Evitar CWI de rotina imediatamente após o treino Se usar frio: separado do treino, ocasionalmente A CWI pode atenuar a adaptação relacionada com a hipertrofia Escolha o frio apenas em períodos de carga elevada ou dor
    Atleta de resistência (época competitiva) Carga semanal elevada, dor muscular CWI / banho de gelo 11–15 °C, 10–15 min, 1–3×/semana após sessões intensas Evidência robusta para alívio da dor de DOMS Mantenha a cabeça fora, entre gradualmente
    Trabalhador de escritório (estado de alerta) Baixo estado de alerta de manhã Duche frio 10–20 °C, 30–60 s no final do duche, 3–7×/semana A ativação simpática aguda aumenta o estado de alerta Pare ou reduza se o sono piorar
    Pessoa em reabilitação (dor local) Dor local por sobreuso (por exemplo, joelho) Bolsa de gelo / compressa fria 10–15 min, 1–3×/dia, 3–7 dias O frio reduz a sinalização local da dor Evite contacto direto prolongado com gelo; vigie a pele
    Iniciante (abertura no gelo) Quer experimentar em segurança Abertura no gelo (curto) 0–5 °C, 10–20 s ao início → 30–60 s gradualmente O controlo da respiração é a base da segurança Não sozinho, sem mergulho súbito
    Dor crónica (por exemplo, fibromialgia) Tentativa de controlo dos sintomas WBC (supervisionado) −110 °C (típico), 1–3 min, séries de 5–10× Em alguns RCTs, a dor e a qualidade de vida melhoram Avalie contraindicações, avalie a resposta em 2–6 visitas

    Protocolos por método

    1) Duche frio: protocolo detalhado

    Objetivo:

    • Aumentar o estado de alerta e a energia percebida.
    • Treinar a tolerância ao stress ligeiro na vida diária.
    • Criar uma “dose” de frio de baixo risco quando a imersão em água fria não é adequada (por exemplo, banho em abertura no gelo ou banho de gelo).

    Protocolo A: início (2 semanas)

    • Tome primeiro um duche normal e quente.
    • Mude para água fresca/fria no final.
    • 10–20 °C (água fresca–fria)
    • Para um iniciante, 15–20 °C é suficiente
    • Duração: 30–60 s.
    • Frequência: 3–5 vezes por semana.
    • Mantenha a cabeça maioritariamente fora da água fria direta ao início.

    No ensaio clínico aleatorizado, os investigadores usaram 30, 60 ou 90 segundos de duche frio por dia durante 30 dias (duche morno seguido de frio no final). O estudo relatou menor baixa por doença autorreferida. O benefício não diferiu claramente entre 30/60/90 segundos. Isto apoia uma dose moderada e curta no início.(27)

    Protocolo B: aumentar (semanas 3–6)

    • Aumentar a duração para 60–120 segundos.
    • Aumentar a frequência para 4–7 vezes por semana, se a resposta for boa.
    • Manter a intensidade controlada: a respiração mantém-se calma.
    • Monitorizar: estado de alerta percebido, qualidade do sono, irritabilidade, tremores após a exposição.
    • Se os tremores persistirem durante muito tempo ou o sono piorar, reduzir a dose.

    Não faça um duche frio “agressivo” e prolongado se tiver hipertensão não tratada ou doença cardíaca significativa sem avaliação médica, pela mesma lógica básica que em outras exposições ao frio.(12)


    2) Banho de gelo / imersão em água fria (CWI): protocolo detalhado

    Objetivo:

    • Reduzir a dor muscular de início tardio (DOMS)
    • Apoiar a recuperação percecionada durante períodos de carga elevada(24)

    Protocolo A: focado em DOMS (melhor início para a maioria das pessoas)

    • Temperatura: 11–15 °C
    • Duração: 10–15 min
    • Frequência: 1–3× por semana, conforme necessário
    • Manter a cabeça fora de água
    • Entrar gradualmente ao longo de 30–60 segundos

    Com base na meta-análise em rede, uma duração de 10–15 min e uma temperatura de 11–15 °C foram a melhor combinação para alívio da dor DOMS, em comparação com outras categorias de dose.

    Protocolo B: “maior carga nos tecidos” (para utilizadores experientes, não obrigatório)

    • Temperatura: 5–10 °C
    • Duração: 10–15 min
    • Utilização: apenas se tolerar bem e se o objetivo for mais “recuperação bioquímica” do que apenas DOMS (por exemplo, redução da creatina quinase / CK)

    A mesma análise relatou (ver acima) que 10–15 min e 5–10 °C estiveram associados ao melhor efeito para alguns marcadores de recuperação bioquímica, mas a resposta em DOMS foi melhor no intervalo de 11–15 °C.(24)

    Momento em relação ao treino:

    • Resistência / acumulação de jogos: a CWI pode fazer sentido imediatamente ou no próprio dia se o objetivo principal for a capacidade funcional no dia seguinte.
    • Treino de força (hipertrofia): Evite uma rotina de “sempre logo após o treino”. A investigação mostra que a CWI imediatamente após o treino de força pode atenuar sinais anabólicos agudos e adaptações a longo prazo.(28-29)

    Segurança e limites:

    • Lembre-se da queda adicional da temperatura corporal após sair: a temperatura central pode diminuir depois de sair. Faça um reaquecimento calmo.(25)
    • Se a respiração se tornar descontrolada ao entrar, a exposição é demasiado grande ou a entrada é demasiado súbita. O choque térmico e a carga autonómica explicam o risco.(12)

    3) Natação em abertura no gelo: protocolo detalhado (segurança em primeiro lugar)

    Objetivo:

    • Treinar a tolerância experiencial ao stress
    • Alterar rapidamente o estado de alerta
    • Fazer treino ao frio sem exposição prolongada
    • Os objetivos são os mesmos da CWI

    Protocolo A: início (2–4 semanas)

    • Escolher um local seguro e companhia
    • Entrar na água gradualmente
    • Manter as mãos no corrimão
    • Manter a cabeça levantada
    • Duração no início: 10–30 s
    • Temperatura: tipicamente 0–5 °C (água natural no inverno)
    • Frequência: 1–3× por semana

    A exposição súbita à água fria pode desencadear choque térmico e “conflito autonómico”, o que pode aumentar as arritmias e a falha no controlo da respiração, mesmo em pessoas saudáveis. A entrada gradual reduz a componente de choque agudo.(12)

    Protocolo B: aumentar (semanas 5–10)

    • Aumente a duração para 30–60 s
    • Aumente apenas quando a respiração se mantiver controlada durante toda a exposição
    • Mantenha a exposição curta. A natação em buraco no gelo não precisa de muito tempo para melhorar o estado de alerta.

    Saída e fase seguinte

    • Seque-se rapidamente
    • Aqueça gradualmente
    • Tenha em conta a descida posterior da temperatura corporal (afterdrop): pode sentir mais frio só depois de sair(25)

    Notas:

    • Não vá sozinho
    • Não pratique natação em buraco no gelo se tiver hipertensão não tratada, doença cardíaca significativa ou tendência para desmaiar sem avaliação de um médico.(12)

    4) Crioterapia de corpo inteiro (WBC): protocolos detalhados

    Objetivo:

    • Apoiar a recuperação percebida em situações de carga selecionadas
    • Reduzir a experiência de dor e o perfil inflamatório em alguns grupos-alvo e contextos(30-31)

    Dose básica (comum nos estudos)

    • Duração: 2–3 min
    • Temperatura: −110–160 °C (a intensidade depende do dispositivo)
    • Série: 5–10 sessões (muitas vezes diárias ou quase diárias)
    • Implementação: protocolo-padrão da clínica, ar frio seco

    Os estudos usam tipicamente exposições curtas e séries. Por exemplo, um protocolo de WBC de “3 min por dia”, como série de 10 sessões, é usado em contextos relacionados com marcadores de inflamação e stress oxidativo.

    Protocolo A: “série de avaliação”

    • Faça 3 sessões no prazo de 7–10 dias.
    • Registe: sono, dor, recuperação percebida, estado de alerta.
    • Continue até 5–10 sessões se a resposta for clara.

    A resposta à WBC varia e os desenhos dos estudos diferem. Na prática, uma série de visitas mostra melhor as respostas individuais do que uma única visita.

    Protocolo B: “congestão competitiva / carga elevada”

    • 2–3 min
    • 3–5 sessões por semana durante um curto período
    • Pare ou reduza quando o período de carga elevada terminar

    As evidências de algumas meta-análises apoiam alterações em marcadores inflamatórios, mas o efeito depende da dose e do alvo. O uso em série é típico.


    5) Crio local: protocolos detalhados

    Nesta secção, “crio local” refere-se a arrefecimento direcionado (por exemplo, ar frio/cryoflow, dispositivos como X°Cryo-type local treatment, e outros métodos direcionados). O objetivo é uma resposta local, não uma carga de corpo inteiro.

    Objetivo:

    • Reduzir a dor local e a irritação.
    • Abrandar localmente a velocidade de condução nervosa, o que pode apoiar a analgesia.
    • Apoiar a gestão da carga local como complemento da reabilitação.

    Protocolo A: área dolorosa / área de sobrecarga (comum)

    • Selecione a área (por exemplo, joelho, Aquiles, cotovelo, zona lombar).
    • Exponha durante 2–5 min por sessão (segundo as instruções do dispositivo)
    • Temperatura da pele:
      • 0–5 °C → resposta nervosa máxima (analgesia mais forte)
      • 10–15 °C → resposta terapêutica suficiente com menor risco
    • Faça 1–2× por dia durante um período de 3–7 dias.
    • Avalie a resposta e faça uma pausa se a pele ficar irritada ou se a dormência durar muito tempo.

    A crioterapia local “baseada em ar” pode diminuir claramente a temperatura da pele e abrandar a velocidade de condução nervosa periférica. Isto apoia mecanisticamente um efeito de atenuação da dor.

    Os protocolos dos dispositivos de crio local visam frequentemente diminuir a temperatura da pele para valores muito baixos, mesmo próximos de 0–5 °C, para abrandar ao máximo a velocidade de condução nervosa e reforçar a resposta analgésica. Na literatura de reabilitação, o efeito terapêutico já ocorre com temperaturas cutâneas mais elevadas (cerca de 10–15 °C), e temperaturas mais baixas podem aumentar o risco de ulceração pelo frio. O alvo ideal depende do objetivo, da duração e dos fatores de segurança.

    Nota: Não arrefeça se a sensibilidade estiver comprometida ou se a área tiver uma perturbação circulatória.

    Protocolo B: “intervalo” (sensibilidade nervosa e à dor)

    • 60–90 s de arrefecimento

    • 60–90 s de pausa

    • Repetir 3–5 rondas

    Os intervalos produzem muitas vezes um estímulo local suficiente e reduzem o risco de arrefecimento excessivo da pele em comparação com uma exposição contínua prolongada (lógica prática de segurança).


    Tabela-resumo de objetivos / queixas

    Objetivo / queixa Melhor primeira escolha Porquê Dose típica Temperatura Nota
    Estado de alerta + tolerância ligeira ao stress Estado de alerta + tolerância ligeira ao stress Menor carga, fácil de repetir 30–90 s, 3–7×/semana 10–20 °C Reduzir se o sono piorar
    Dor DOMS + capacidade funcional no dia seguinte CWI / banho de gelo Melhor evidência para alívio da DOMS 10–15 min, 1–3×/semana 11–15 °C Entrar gradualmente, manter a cabeça erguida
    Calendário competitivo / carga elevada WBC Exposição curta ao ar, a série importa 1–3 min, 5–10×/período −110−160 °C Considerar contraindicações
    Hipertrofia e adaptação a longo prazo Evitar CWI imediatamente após o treino Pode atenuar a adaptação Se usar: raramente, separado do treino 5–15 °C Não fazer como rotina após o treino (intervalo mín. de 2–4 h)
    Dor local / área de sobrecarga Crioterapia local (p. ex., X-CRYO) Analgesia dirigida, baixa carga sistémica 2–10 min, 1×/dia, 3–7 dias O alvo cutâneo é muitas vezes 10–15 °C (ou inferior, de forma breve, consoante o dispositivo) Risco de queimadura por frio se a exposição for demasiado longa
    Ligação com a natureza e estado de alerta Buraco no gelo (curto) Resposta forte do sistema nervoso com pouco tempo 10–30 s → 30–60 s, 1–3×/semana 0–5 °C Não fazer sozinho e sem mergulho súbito

    Contraindicações, riscos e precauções em diferentes formas de exposição ao frio

    A exposição ao frio é geralmente bem tolerada quando é corretamente dosada, mas envolve riscos fisiológicos claros. Os riscos dependem da rapidez de exposição, da temperatura, da duração e da área de superfície exposta. O perfil de risco difere significativamente entre exposição à água fria, ar frio, arrefecimento local e tratamentos de corpo inteiro. Em seguida apresentam-se as principais contraindicações e precauções, descritas por tipo de exposição, com base na investigação.

    Contraindicações gerais (aplicam-se à maioria das formas de exposição ao frio)

    Nas situações seguintes, deve recorrer à exposição ao frio apenas com base na avaliação de um médico ou deve evitá-la:(57)

    • Doença cardiovascular (por exemplo, doença arterial coronária, hipertensão grave, tendência para arritmias)
      • O frio aumenta a carga simpática e a pressão arterial e pode desencadear conflito autonómico (choque simpático ao frio + reflexo de mergulho parassimpático).(46)
    • Fenómeno de Raynaud ou hipersensibilidade ao frio
      • A vasoconstrição acentuada pode agravar os sintomas e aumentar o risco de lesão tecidular.
    • Urticária ao frio ou outra alergia ao frio
      • O frio pode desencadear uma reação sistémica ou anafilaxia.
    • Alterações sensitivas ou neuropatia
      • A diminuição da sensibilidade aumenta o risco de congelamento e de lesão tecidular.
    • Ferida aberta ou lesão cutânea na área de exposição (frio local)
    • Anemia grave ou perturbações circulatórias
    • A vasoconstrição periférica pode reduzir a perfusão tecidular.
    • Asma ou doença respiratória mal controlada
      • O ar frio pode desencadear broncospasmo.

    1) Imersão em água fria e natação no inverno (CWI, buraco no gelo)

    Riscos principais:

    • Resposta de choque ao frio(48)
      • O arrefecimento rápido da pele desencadeia um reflexo de inspiração súbita, hiperventilação e um aumento da pressão arterial em segundos.
      • Aumenta o risco de afogamento se a respiração não for controlada.
    • Risco de arritmia e carga autonómica
      • A ativação simpática simultânea e o reflexo de mergulho podem aumentar a tendência para arritmias.(12)
    • Afterdrop e hipotermia
      • A temperatura central pode diminuir após a exposição, à medida que o sangue frio regressa da periferia para o centro.
    • Aumento da pressão arterial
      • A vasoconstrição periférica aguda aumenta a pressão arterial.

    Contraindicações específicas:

    • Doença cardíaca ou tendência para arritmias
    • Hipertensão mal controlada
    • Epilepsia (carga autonómica súbita)
    • Exposição sob o efeito de álcool

    2) Crioterapia de corpo inteiro (WBC)

    A crioterapia de corpo inteiro expõe brevemente o utilizador a ar extremamente frio, mas a temperatura central geralmente altera-se menos do que na imersão em água fria. Os riscos relacionam-se sobretudo com alterações circulatórias e respiratórias.

    Riscos principais:

    • Aumento da pressão arterial e resposta vascular
      • A vasoconstrição periférica acentuada aumenta a carga cardíaca.(36)
    • Queimadura por frio ou lesão cutânea
      • Exposição demasiado prolongada ou pele húmida aumenta o risco
    • Tonturas e reações vasovagais
      • Raras, mas descritas em séries clínicas

    Contraindicações absolutas (nas orientações clínicas):(58)

    • Doença cardíaca instável: insuficiência cardíaca não controlada, arritmias, doença arterial coronária grave.
    • Estado de hipertensão não controlada: pressão arterial severamente elevada que não está controlada.
    • Alergias e sensibilidades ao frio:
      • urticária ao frio
      • crioglobulinemia
      • fenómeno de Raynaud (se os sintomas forem graves)
    • Feridas abertas, úlceras, lesões cutâneas: a exposição ao frio pode atrasar a cicatrização ou agravar infeções.
    • Infeções agudas ou febre: por exemplo, inflamação grave, sépsis ou infeções cutâneas ativas.
    • Anemia grave: o transporte de oxigénio já está reduzido, pelo que o frio extremo pode aumentar o risco de complicações.
    • Gravidez: os dados de segurança são limitados, e o risco fetal não está excluído.
    • Problemas respiratórios agudos: por exemplo, uma crise asmática grave ou DPOC mal controlada.
    • Perturbação grave da circulação periférica: por exemplo, doença arterial periférica avançada, pé diabético.
    • Epilepsia e outras perturbações convulsivas: a exposição rápida ao frio pode predispor a convulsões.
    • Alterações graves dos fluidos ou dos eletrólitos: risco de arritmias e de variação da pressão arterial.
    • Cancro: especialmente cancro avançado ou ativo; é necessário avaliar o efeito no equilíbrio entre tratamento e imunidade, caso a caso.
    • Instabilidade psiquiátrica grave: por exemplo, psicose aguda, em que a capacidade do doente para avaliar a sua condição está reduzida.

    A evidência de eventos adversos graves é limitada, mas os protocolos clínicos exigem rastreio antes do tratamento.

    3) Terapia local com frio (compressa de gelo, compressa fria)

    O frio local é geralmente a forma mais segura de exposição ao frio, mas os riscos incluem lesão tecidular.(49,52)

    Principais riscos:

    • Congelamento e lesão tecidular
      • O contacto prolongado direto com gelo pode danificar a pele e os nervos.
      • O risco aumenta se a pele arrefecer abaixo de ~10 °C durante períodos prolongados.
    • Lesão nervosa
      • O arrefecimento prolongado pode reduzir a função nervosa local.

    Contraindicações:

    • Alterações da sensibilidade
    • Perturbações circulatórias
    • Hipersensibilidade ao frio
    • Ferida aberta sem proteção

    4) Frio extremo local (CO₂ frio / ar frio, por exemplo, tipo X°Cryo)

    O frio extremo local diminui rapidamente a temperatura da pele e pode produzir um gradiente local de arrefecimento maior do que o gelo.(55)

    Principais riscos:

    • Arrefecimento rápido da pele → risco de congelamento
      • Um arrefecimento forte e rápido pode danificar a pele se a dose for demasiado elevada
    • Dose irregular
      • A pressão, a distância e o tempo de exposição influenciam fortemente a temperatura dos tecidos

    Contraindicações:
    As mesmas da terapia local com frio, especialmente:

    • hipersensibilidade ao frio
    • alterações da sensibilidade
    • perturbações circulatórias

    A evidência de eventos adversos graves é limitada, mas o controlo da dose é o principal fator de segurança.

    Avaliação global da segurança

    A segurança da exposição ao frio depende principalmente da dose e do controlo da exposição. Os riscos mais graves relacionam-se com a exposição súbita a água fria, em que a respiração e a carga cardíaca podem mudar rapidamente. O frio local é geralmente seguro quando utilizado corretamente, mas o risco de lesão tecidular aumenta com exposições longas ou intensas. A crioterapia de corpo inteiro e o frio extremo local exigem uma dosagem e um rastreio cuidadosos, especialmente em doença cardiovascular.

    Com uma implementação correta, a exposição ao frio é uma intervenção controlável, mas os riscos não são nulos. Por este motivo, deve sempre adequar a exposição ao estado de saúde, objetivo e método do indivíduo.

    AVISO LEGAL:

    Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento médico profissional. As pessoas interessadas em terapia de exposição ao frio devem consultar profissionais de saúde qualificados para garantir que os métodos escolhidos são seguros e adequados às suas necessidades de saúde específicas.


    Resumo

    A exposição ao frio é um estímulo biológico que provoca respostas claras e mensuráveis no sistema nervoso, na vasculatura, no metabolismo e na sinalização da dor. O efeito não resulta de um único fator. Resulta da combinação entre temperatura, tempo de exposição, velocidade de arrefecimento e área de superfície exposta. Por este motivo, um duche frio, um banho de gelo, natação em água gelada através de um buraco no gelo, crioterapia de corpo inteiro e frio extremo local não são o mesmo tratamento com nomes diferentes. São métodos diferentes que produzem doses diferentes.

    A evidência científica mais forte diz respeito a três áreas de utilização. Em primeiro lugar, a imersão em água fria reduz a dor muscular de aparecimento tardio (DOMS) e pode melhorar a perceção de recuperação em certas situações de carga. Em segundo lugar, a terapia local com frio produz um efeito analgésico fiável ao abrandar a velocidade de condução nervosa e reduzir a entrada nociceptiva. Em terceiro lugar, a exposição breve ao frio aumenta agudamente a atividade simpática e pode elevar o estado de alerta.

    No caso da crioterapia de corpo inteiro, a evidência apoia possíveis efeitos na dor e em alguns marcadores inflamatórios, mas os resultados variam entre tipos de estudo e populações. A exposição repetida à água fria e a natação no inverno podem alterar a reatividade autonómica e ativar o tecido adiposo castanho, mas a resposta é individual, e os efeitos a longo prazo precisam de mais investigação de alta qualidade.

    Ao mesmo tempo, a investigação mostra limitações. O frio não melhora a recuperação em todas as situações nem em todas as medidas. A imersão rotineira em água fria imediatamente após treino de força pode enfraquecer as adaptações relacionadas com a hipertrofia. O frio também não é um método simples de perda de gordura, embora possa ativar a termogénese sem tremor em certas condições.

    A segurança depende da forma de aplicação. A exposição súbita à água fria pode desencadear choque pelo frio, em que a respiração e a pressão arterial mudam rapidamente. O risco não se aplica apenas a pessoas em má condição física. O risco relaciona-se com a velocidade de exposição e com o controlo da respiração. A lógica de dose-resposta também se aplica ao frio: uma dose demasiado grande ou mal temporizada pode enfraquecer o benefício pretendido.

    No conjunto, a exposição ao frio é uma ferramenta útil e biologicamente fundamentada quando o objetivo é específico e o método corresponde ao objetivo. Funciona melhor como parte de um todo que inclua gestão da carga, sono e nutrição. O frio não é um tratamento universal para a saúde. É uma intervenção dependente da dose, com benefícios e riscos que dependem da utilização.


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